Bruna Frascolla e Rodrigo Constantino: a crença que "monstros" não podem sofrer racismo.




Desde que o caso Carrefour - com a morte brutal do João - ganhou repercussão nacional, Rodrigo Constantino e Bruna Frascolla, colunistas da Gazeta do Povo, esforçam-se muito para venderem a ideia que a polícia não é seletiva e que "monstros" não podem ser vítimas de racismo. Esta afirmação deles é bem ruim. Não faz muita lógica.


Os dois escrevem para a Gazeta do Povo, jornal de Minas antigo e que se classifica como conservador. Diferente de Constantino, explicitamente um liberal conservador, Bruna Frescolla é recém chegada no jornal e nas redes sociais ela não explicitamente se coloca como conservadora. Lá ela é apenas uma liberal controversa.

 A Bruna, ao saber do crime no Carrefour, resolveu logo colar um texto no Facebook para acabar com essa história de que há racismo no Brasil. No Twitter, colou logo à narrativa da direita perpetuada pelo vice-presidente, o presidente e, claro, Constantino & companhia, de que racismo não existe no Brasil e de que não há seletividade policial no país. Começou-se então um trabalho que deixaria feliz qualquer criminoso: a destruição da reputação de sua vítima. 

Aqui não pretendo entrar no mérito da seletividade policial. Há inúmeros bons artigos sobre o assunto. Quero é destruir este argumento deles de que "monstros não podem ser mortos por racistas". 

A verdade é que este não é um argumento novo.

O CASO BERNHARD GOETZ

1984 New York City Subway shooting



Em 22 de Dezembro de 1984, Bernhard Goetz atirou em 4 negros que lhe pediram dinheiro no metrô de Nova Iorque. Uma das vítimas, tragicamente, ficou paraplégica. Os negros da cidade se revoltaram. Os liberais de Nova Iorque também. Os brancos ficaram em dúvida. E a indústria de armas de fogo adorou. O que tinha acontecido naquela tarde mostrava o sucesso de se ter uma arma na cintura para combater a criminalidade, extremamente em alta naquela década. Numa cidade dividida, a questão era: seria um caso de legítima defesa ou homicídio doloso qualificado por fator racial? Para Bernhard, sua atitude ocorreu por conta do medo da criminalidade, medo de ser morto e não teria sido por racismo. Ele achou que aqueles jovens iriam roubá-lo. Sua defesa resolveu, claro, atacar a reputação dos jovens, a fim de provar que ele tinha agido realmente por medo. E realmente descobriram coisas lamentáveis sobre os quatro jovens negros. Os quatro eram bandidos e naquele momento se dirigiam para assaltar um playground em Nova Iorque. E um deles disse que provavelmente seus amigos iriam tentar assaltar Bernhard no metrô naquela tarde. Isto era sem dúvida uma ótima notícia para a defesa legal de Bernhard. E é aí que entra o caso Carrefour. Para os seguranças, é ótimo desmerecer a vítima. A narrativa dos advogados de Bernhard é igual a da Gazeta do Povo e provavelmente será a mesma do advogado de defesa dos seguranças: o objetivo é desmerecer e desqualificar ao máximo a vítima para eliminar o dolo eventual e o provável fator racismo dos agressores.

Em 1984, o advogado de Bernhard apresentou provas de que os negros eram ladrões, que estavam com chaves de fenda, que poderiam causar lesões etc. E que portanto o ato de Bernhard se justificaria. Só que esta narrativa não durou muito com a chegada de novas informações.


Aos poucos, também foi descoberto, através de um vídeo de confissão do Bernhard, que ele era vingativo e que já tinha sido assaltado. O último assalto claramente afetou sua mente e por isso tinha obtido uma arma e a portava ilegalmente no metrô naquele dia.



Mas o que mais enfureceu a cidade foi saber de uma fala dele que aconteceu há 18 meses antes do crime numa reunião com outras pessoas presentes.

Bernhard disse:
"The only way we're going to clean up this street is to get rid of the spics and niggers". "A única forma de limparmos esta cidade é nos livrando dos negros".
Logo, portanto, se percebeu e ficava claro que a atitude dele tinha pelo menos um pouco ali de algo racial. O mesmo admitiu anos mais tarde que seu medo foi elevado ao máximo devido ao fato dos bandidos serem negros, fala que ocorreu numa entrevista concedida ao jornalista americano Stone Philips.



Assim sendo, não se deve escutar e previamente inocentar acusados de racismo. Se apenas os comunicadores de direita serem escutados, qualquer pessoa perderá metade de uma história já que tenta toda vez, em casos como este, é de praxe a direita deslegitimar vítimas negras, pegando suas histórias e tudo que há de imoral em suas vidas para tentar afastar o dolo eventual, o provável racismo e a culpa de agressores brancos.
Muito mais razoável portanto esperar o decorrer das investigações do que agir feito um advogado dos agressores. "Monstros" também podem ser vítimas de racismo. ***Obs: este artigo não almeja obviamente desmoralizar os dois colunistas. Não é um ataque pessoal. Aqui faço apenas uma crítica às suas opiniões mais recentes.

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